Onde é que se ensina compaixão? Como é que se ensina compaixão? O lugar da compaixão não é o lugar do conhecimento. É no coração. É do coração que a ética surge, como determinação viva do corpo. Mas como é que se educa o coração?
A minha neta Camila, de 11 anos de idade, estava a almoçar quando, sem razão aparente, começou a chorar. Saiu da mesa e foi para a sala de televisão, onde se deitou num sofá e continuou a chorar. Fui até ela para saber o que estava a acontecer e foi isto que ela me disse: "Avô, eu não consigo ver uma pessoa sofrer sem sofrer. Quando vejo uma pessoa sofrer o meu coração fica junto ao coração dela..." Tão menina e já sofre da poesia. Ela pensa usando imagens: o meu coração fica junto ao coração dela...
Isso tem o nome de compaixão. Talvez devêssemos abandonar a definição tradicional do ser humano como o animal que pensa e substituí-la por uma nova definição, tão mais verdadeira: "O homem é o animal que sente compaixão". Compaixão quer dizer "sentir junto". Não estou a sofrer. Mas vejo alguém sofrendo.
Duas crianças, numa noite de fria e de vento, num semáforo, pedem-me uma moedinha. Elas me olham com seus olhos pingando de chuva. O seu olhar rompe a minha tranquilidade. E sofro com elas.
Compaixão também se tem por um animal. Lembro-me de uma amiga a chorar com o seu pássaro preto nas mãos, morrendo. Afinal de contas, quanto vale um pássaro preto?
E pode até mesmo ser compaixão por uma planta. Fernando Pessoa sentia compaixão pelos arbustos. "Aquele arbusto fenece, e vai com ele parte da minha vida. Em tudo quanto olhei fiquei em parte. Com tudo quanto vi, se passa, passo. Nem distingue a memória do que vi do que fui".
A ética é uma disciplina filosófica que se dedica a investigar o bem que devemos fazer. Kant, um de seus grandes teóricos, se assombrou com o facto de que os homens, inteligentes, capazes de conhecer com a sua razão o bem que deve ser feito, não o fazem. O conhecimento da ética não nos torna seres éticos. Um professor que ensina ética numa sala de aula pode ser um monstro quando ninguém está a olhá-lo.
Os políticos que mergulham o país nessa vergonha que temos não são ignorantes. São inteligentes. Estudaram em boas escolas. Têm diplomas. Sabem o que é certo e o que é errado. E até mesmo se gabam de sua excelência em público, sem se envergonhar. Bom é pouco. Muito bom não chega. Excelentíssimo, bom acima de qualquer comparação: é assim que eles se tratam.
A corrupção não decorre de uma falta de conhecimento. Decorre de uma doença na alma. Não aprenderam a compaixão. Não se enquadram, portanto, em nossa definição de homem. Seus corações não sofrem ao ver o sofrimento.
Vêem as crianças nas ruas, os velhos abandonados, os adolescentes confusos, os pobres com fome. Mas isso não faz os seus co-rações sofrer. Os corações sem compaixão batem sozinhos . Não saem de si mesmos.
Aí comecei a pensar nas escolas. Tantas coisas se ensinam lá! Os programas são enormes. Mas onde se ensina compaixão? Como se ensina compaixão?
O lugar da compaixão não é o lugar do conhecimento. É no coração. É do coração que a ética surge, como determinação viva do corpo. Mas como se educa o coração?
Conhecimento sem coração é demoníaco. As maiores atrocidades são perpetradas por meio dos conhecimentos de PhDs .
Se alguma escola estiver interessada em ensinar a compaixão, chamem a minha neta Camila.
Ela sabe...
Rubem Alves
As crianças e os jovens conhecem cada vez mais o mundo em que estão, mas não sabem quase nada sobre o mundo que são.
Como pais queremos dar o melhor aos nossos filhos. Sonhamos grandes sonhos para eles, procuramos dar-lhes os melhores brinquedos, roupas, passeios e escolas. Não queremos que eles andem à chuva, se magoem, se firam com os brinquedos caseiros e vivam as dificuldades pelas quais nós passámos. Colocamos uma televisão na sala. Alguns de nós, com mais recursos, colocam uma televisão e um computador no quarto de cada filho. Outros preenchem o tempo dos seus filhos com actividades, matriculando-os em cursos de inglês, informática, música.
Tivemos uma excelente intenção, só não sabíamos que as crianças precisam de ter infância, que necessitam de inventar, correr riscos, decepcionar-se, ter tempo de brincar e encantar-se com a vida. Não imaginávamos o quanto a criatividade, a felicidade, a ousadia e a segurança do adulto dependem das matrizes da memória e da energia emocional da criança que foi. Não compreendemos que a televisão, os brinquedos manufacturados, a Internet e o excesso de actividades bloqueiam a infância dos nossos filhos.
Criámos um mundo artificial para as crianças e continuaremos a pagar caro por isso.
Esperávamos que no século XXI os jovens fossem solidários, empreendedores e amassem a arte de pensar. Mas muitos vivem alienados, não pensam no futuro, não têm garra e projectos de vida.
Imaginávamos que, pelo facto de aprendermos línguas na escola e vivermos espremidos nos elevadores, no local de trabalho e nos clubes, a solidão seria resolvida. Mas não foi.
As pessoas ainda não aprenderam a falar de si mesmas, têm medo de se expor, vivem presas no seu próprio mundo. Pais e filhos vivem isolados, raramente choram juntos e falam dos seus sonhos, mágoas, alegrias, frustrações.
Nas escolas, a situação é pior. Educadores e educandos vivem juntos durante anos na sala de aula, mas são estranhos uns para os outros. Eles escondem-se atrás dos livros, dos cadernos, dos computadores. A culpa é dos professores, dos educadores? Não! A culpa é do sistema educacional doentio que se arrasta há séculos.
As crianças e os jovens aprendem a lidar com factos lógicos, mas não a lidar com fracassos e falhas. Aprendem a resolver problemas matemáticos, mas não sabem resolver os seus conflitos existenciais. São treinados para fazer cálculos e acertar, mas a vida é cheia de contradições e as questões emocionais não podem ser calculadas, nem têm conta exacta.
As nossas crianças, os nossos jovens são preparados para lidar com decepções? Não! Eles são treinados apenas para o sucesso. Mas viver sem problemas é impossível. O sofrimento pode construir-nos ou destruir-nos. Devemos usar o sofrimento para construir a sabedoria. Mas quem é que se importa com a sabedoria na era da informática?
A nossa geração produziu mais informação do que nenhuma outra, mas não sabemos o que fazer com ela. Raramente usamos essa informação para aumentar a nossa qualidade de vida. Vamos ser sinceros: Será que fazemos coisas nos nossos tempos livres que nos dão prazer? Será que procuramos administrar os nossos pensamentos para termos uma vida mais tranquila e de paz?
Tornámo-nos máquinas de trabalhar e estamos a transformar as nossas crianças em máquinas de aprender.
As crianças e os jovens conhecem cada vez mais o mundo em que estão, mas não sabem quase nada sobre o mundo que são. Devemos procurar soluções que ataquem directamente o problema. Precisamos conhecer algo sobre o funcionamento da mente e mudar alguns pilares da educação. As teorias já não resultam.
Os bons educadores estão stressados " e geram alunos despreparados para a vida. Os bons pais estão confusos e geram filhos em constante conflito. Existe no entanto uma grande esperança, embora não haja uma solução mágica.
Actualmente, não basta ser bom pai, boa mãe, pois a crise na educação impõe que procuremos a excelência.
Os pais precisam de adquirir os hábitos dos pais brilhantes para revolucionar a educação. Os professores precisam de incorporar os hábitos dos educadores fascinantes para actuar com eficiência no pequeno e infinito mundo da personalidade dos seus alunos.
Um excelente educador não é um ser humano perfeito, mas alguém que tem serenidade para se esvaziar e sensibilidade para aprender.
Urge que construamos a escola dos nossos sonhos.
A Universidade da Criança acredita que é possível.
Anna Karina Heim-Monteiro
Gestora Escolar da Universidade da Criança
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